quinta-feira, 30 de dezembro de 2010

Isabelle Caro, 28 anos, morta.



Pois a modelo Isabelle Caro faleceu recentemente, a 17 de novembro. Por uma dessas coisas que são difíceis de explicar, sua morte só foi divulgada 29 de dezembro.


São, eu disse, coisas difíceis de explicar. Mas não impossíveis. Porque Isabelle é uma dessas coisas que se faz esforço para esquecer. Uma pessoa que faz questão de mostrar o aleijão moral e, com isso, faz com que percebamos nossos próprios aleijões. E ninguém gosta disso, certo?


Isabelle faleceu aos 28 anos. Ficou conhecida por posar nua em uma campanha contra anorexia. Isabelle chegou a pesar 25 quilos, com seus 1,65m. Ao morrer, pesava 42. Estava se recuperando, mas infelizmente isso só serviu para a piada: "morta, sim, mas parece tão saudável..."


Sua coragem será, se possível, esquecida. As fotos com o fashion esqueleto à mostra, macabras poses sexy, tinham a intenção de alertar para nosso distorcido senso estético e os danos possíveis a impressionáveis adolescentes. Sabemos como são adolescentes: inseguros e ansiosos por pertencer a algum lugar ou grupo. Que uma indústria da moda propague o corpo ideal como sendo o de uma pessoa doente é criminoso. E Isabelle, 28 anos, foi mais uma das vítimas dessa indústria.


O corpo de Isabelle, leve, leve, no caixão, é uma testemunha de nossa preguiça e de nossa inação. Preguiça de pensar, mesmo. De deixar que uma indústria determine nosso senso de beleza. De aceitar o que nos impõe como norma, como se ser parte de um padrão fosse algo louvável ou mesmo aceitável. Como se a individualidade fosse repreensível, e não algo raro e maravilhoso porque diverso - e a diversidade é riqueza.

Outro dia estava assistindo TV com a patroa e me deparei com um dos mais sádicos e tristes programas que já vi na minha vida. Outro desses programas era um da Xuxa, que oferecia uma operação plástica como prêmio (não sou xiita: acho que há casos em que uma cirurgia plástica - especialmente as de reconstrução - é um fator determinante da qualidade de vida do indivíduo, mas não creio que fosse o caso). Esse de que falo agora é O Esquadrão da Moda, e seu roteiro básico é um casal, uma mulher e um homem (nenhum dos dois tem cara disso), humilhando uma vítima a pedido de algum parente ou conhecido, e oferecendo dez mil reais para que essa pessoa mude o guarda-roupas.

É um sintoma do modo de produção sob o qual vivemos, não há dúvida: não somos indivíduos, somos consumidores, e essa postura torna mais fácil vender tralhas para uma fatia mais ampla da população. Antigamente a adolescência ia de treze até dezoito. Agora vemos crianças de onze agindo como adolescentes... e isso vai até os 50 (tiozinho da Sukita é a nova onda de comportamento do adulto moderno). A moda é ser jovem.

A capacidade de pensar criticamente sobre o assunto está em cheque, somos pressionados por todo canto para nos adequarmos a um padrão. Acabamos depositando nossos valores em coisas transitórias como beleza e moda. E no verão que vem temos que comprar tudo de novo: roupas, sapatos e beleza. Que beleza se compra. É o que todo mundo diz.

Plásticas, botox, maquiagem, perucas, máscaras de um tipo ou de outro, tudo para que você esqueça a criatura triste que está lá, embaixo de tudo aquilo. Você.

Em homenagem a Isabelle, 28 anos, morta, gostaria de postar aqui um vídeo que é uma obra de arte. Não porque nos faz felizes, não porque tem efeitos especiais. Porque nos faz pensar. Vi há um tempão e isso está mais atual do que nunca. Confira, que vale a pena.

3 comentários:

Priscila disse...

Parabéns pela visão de mundo. Infelizmente, essa é uma realidade.

Priscila disse...

Parabéns pela visão de mundo. Infelizmente, essa é uma realidade.

rdelton! disse...

Que triste que essa menina seja notícia pelo bizarro estado que chegou... E como diria o ditado: "Não existe pessoa feia... É você que não sabe usar o photoshop..."

Desculpe... piadinha infame...

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